Por sugestão do nosso amigo Bernardo Antero, o escritor Rui Belo convidou-nos (Joaquim e Aline) para uma entrevista no seu podcast "sobre a família "Regresso a Casa". Nós sugerimos que o ponto de vista da Mariana, enquanto irmã do Rafael, é bastante mais único e merecedor de atenção.
O desafio de ser irmã
Anúncio do episódio 11 da 3ª temporada do podcast Regresso a Casa, by Rui Melo :)
Neste episódio, vou conversar de forma única com a Mariana. Se não nascemos ensinados a ser Pais e se os filhos não vêm com manual de instruções, então e como é que uma criança aprende (ou lhe ensinam) a ser a mana de um irmão com trissomia 21?
Há desafios que não cabem dentro de um ser com meio litro de sangue. Mas há crianças que tornam os desafios em leveza, mesmo com dias cinzentos. E a Mariana é uma dessas pessoas.
Toda a nossa conversa foi de uma leveza e singularidade memoráveis. Obrigado, Mariana, por teres confiado em mim.
Espero que gostem. Divirtam-se!
Segue-se uma transcrição editada.
Introdução
Rui: Boa noite, bem-vindo. Bem-vindos a minha casa para mais um episódio deste podcast Regresso a Casa.
Hoje tenho uma convidada da qual eu nutro bastante empatia. Esta convidada é casada, ainda não tem filhos, mas a razão porque está aqui, para além de toda a sua, vão ver, simpatia, é porque a irmã numa condição muito desafiante.
Muito obrigado por teres aceitado o nosso convite para estares aqui, Mariana.
Mariana: Obrigada.
Rui: Eu começava a lançar-te já uma provocação daquelas do tamanho do comboio. Eu sei que tu estás à altura, não te preocupes. Estamos aqui numa conversa e vamos chegar aqui a lugares muito giros.
Fala-se muito que nós quando crescemos e nos preparamos para ser pais, não nascemos ensinados. Ou seja, as crianças, bebés, depois crianças, depois adolescentes, por aí fora, também não vêm com o manual de instruções. E ao não virem com o manual de instruções e nós não termos nascido ensinados a ser pais, isto torna-se aqui um bocado ansioso.
Mas o que eu queria fazer aqui o ponto contigo era o seguinte: Então, e porque é que ninguém fala?
Porque nós também não nascemos ensinados a ser irmãos e principalmente irmãos com um desafio que é tu tens um irmão que tem trissomia 21, certo?
Mariana: Sim. Sim.
O Rafael está no hospital
Rui: Como é que foi? Porque tu és mais nova do que ele um ano e meio quase. Como é que é entrar nesse comboio em andamento? O que é que te lembras? As memórias mais antigas...
Mariana: Sim. A minha memória mais antiga mesmo. Lembro-me que acordo, olho para o teto, não sei quê, tento sair da cama. Lembro-me que tive trabalho para sair da cama, provavelmente devia ter algum estrado ou assim. Eu era muito pequena, de certeza, para ter esse trabalho.
E fui ao quarto dos meus pais e perguntei onde é que estava o Rafael e eles "está no hospital" e pronto e acaba a memória. Foi só assim.
Rui: Ou seja, nem mas essa memória nem te diz se está no hospital, cuidado! Ou se está no hospital por rotina.
Mariana: Está no hospital por rotina.
Rui: Ou seja, o tom de voz era era de rotina.
Mariana: Era já era o habitual, era a nossa rotina.
Ele não sabe fazer porque é pequenino
Rui: Mas como é que tu depois aos poucos vais aprendendo a lidar com o Rafael no dia-a-dia, sendo que não é fácil? Ou seja, tu alguma vez como criança disseste assim: "Mas porque é que ele não brinca comigo como eu quero que ele brinque comigo?"
Mariana: É engraçado que eu eu acho que nunca olhei para o Rafael nessa altura, quando era mesmo mais pequena, do género "porque é que não é assim"? Eu acho que essas questões só começaram a surgir na pré-adolescência e na naquela primeira infância era tudo muito natural.
Acho que eu assumi muito o papel de mãe-galinha dele, basicamente na altura e éramos um bocado... inseparáveis. Depois, entretanto não, cada um foi fazendo a sua vida, mas até aos 6 anos ou assim, acho que éramos largamente inseparáveis. E eu simplesmente assumia que ele precisava de mais ajuda, mas não me recordo e também nunca me contaram de disso ser assim um grande problema para mim.
Rui: Ou seja, estavam lá os os quatro, a família era quatro e estava tudo bem, não é?
Mariana: Sim, sim, sim. Eu encarava com muita naturalidade aquilo, acho eu. Por exemplo, a minha madrinha conta-me um episódio que ela achou muita piada e que era: eu estava a ajudar o meu irmão, mas nós mesmo muito pequeninos, se calhar tipo com 2-3 anos, eu a ajudá-la a vestir o casaco e ela a dizer alguma coisa, e eu "ó madrinha, ele não sabe fazer porque é pequenino". E pronto, e estava eu a ajudá-la a fazer, mas eu com o detalhe que eu também era pequenina, claro, mas já estava habituada.
Sou mais crescida que ele
Rui: Ou seja, tu a determinada altura, colocas-te num lugar em que sentes que és mais crescida que ele?
Mariana: Sim.
Rui: Isso é notório, né?
Mariana: É. Por exemplo, a minha mãe conta que eu me chateava, quando era mais pequena, dele fazer anos mais cedo que eu no durante o ano.
Rui: Quantidade de anos, não é?
Mariana: Ou seja, porque ele ele ele faz anos em junho, eu faço anos em outubro e eu não percebia porque é que ele fazia anos mais cedo do que eu. Não devia ser eu a fazer anos mais cedo do que ele?
Rui: Tu eras mais responsável, eras mais crescida.
Mariana: E o conceito, como é que eles me explicavam esse conceito? Não, eu teimoseava, não, eu tenho que ser mais cedo.
Comigo ele não tinha de se sentir sozinho
Rui: Olha, e lembras-te assim de... porque depois há a família a quatro, mas também há só vocês dois, a relação só entre vocês dois. Tu tens a noção de de, por exemplo, vocês dois comunicarem de uma maneira só vossa, ou seja, tu estares a entender coisas que os adultos às tantas não entendiam, sobre o que o Rafael estava a querer ou estava a sentir?
Mariana: Boa questão. Provavelmente isso acontecia. Mas não me estou a lembrar de nenhum episódio em particular.
Rui: Mas mas sentias que vocês tinham ali uma uma ligação mais natural, ou seja, que se entendiam de uma forma especial? Porque vocês chegaram a estar várias vezes sozinhos, no sentido estão ali no quarto ou estão ali na brincadeira na na sala.
Mariana: Acho que nós brincávamos mesmo muito à vontade um com o outro e não havia problemas. Porque eu tenho tenho a ideia de que, por exemplo, quando estávamos na creche e no infantário, que às vezes o Rafael poderia ficar assim um bocadinho mais sozinho, mas entre mim e ele não havia esse problema e ele não tinha de se sentir sozinho. Estávamos sempre a fazer companhia um ao outro.
Rui: Alguma vez ele teve assim manifestações em que tu disseste: "Oh, que querido" para contigo, e só que para contigo?
Mariana: Ah isso não me lembro. Eu acho que a nossa relação era mais tipo típicos irmãos que mesmo assim tipo ainda se picavam um ao outro, estás a ver? Portanto, era mais nessa óptica que nós tínhamos...
Rui: Eu aqui a tentar estava a tentar aqui destapar esse... não é uma ideia feita ou preconceito porque eu com o meu irmão 3 anos mais velho andávamos sempre ao estalo. Ou seja, não podíamos ficar separados um do outro, mas a verdade é que aquilo era demais, dois rapazolas, aquilo era demais.
Mariana: Eu discutia com o Rafael porque nós ambos tínhamos personalidades fortes e achávamos que que sabíamos fazer as coisas e que tínhamos de fazer as coisas à nossa maneira. Portanto, também discutíamos de certeza um com o outro desde sempre.
Eu queria é que ele fizesse as mesmas coisas que eu fazia
Rui: Mas há algum momento em que a partir do qual tu começas a dar desconto? Bem, vou dar-lhe, ele tá-me a irritar, mas vou-lhe dar um desconto.
Mariana: A cena é que eu acho que não. Não, eu acho que nisso eu não tinha cá coisinha de "ah não, ele é coitadinho". Não, não. Ele não ia apanhar essa ideia.
Rui: Provavelmente é isso que o fez um ser tão especial, no sentido até de ser forte, porque eu já estive com ele. Ele está a trabalhar, não é?
Mariana: Sim, claro.
Rui: Não é um horário normal, mas ele está a trabalhar e isso é fantástico, é uma aquisição.
Mariana: Eu lembro-me que com ele, e com as pessoas à nossa volta, eu era muito reivindicativa, mas também para com ele. Queria ser exigente com ele nas coisas que ele pudesse fazer, não era estar-lhe a dar sempre o desconto ou assim. Eu queria é que ele fizesse as mesmas coisas que eu fazia.
Rui: Exato. E aprender e andar para a frente.
Mariana: Exato.
Rui: E se calhar fez toda a diferença.
Mariana: E os meus pais contam que nisso eu fui mesmo muito importante porque nós tivemos uma diferença de idade muito pequena.
Rui: Pois é.
Mariana: Mas ele podia também ser incentivado por mim. Eu incentivá-lo a ele a ir fazendo as coisas e aprendendo as coisas. Nesse sentido, foi bom.
Deixem, que ele faz
Rui: E quando é que tu achas, tiveste assim a primeira sensação de, fora do vosso núcleo familiar, alguém estar a tratá-lo como ele não merece? E tu indignaste com isso?
Mariana: Foi com os avós, de certeza. Foi com os avós.
Rui: Eu lembro-me, no quinto ano, havia lá dois rapazolas que andavam-me a marcar o passo. Eu era mais pequeno, eles eram maiores. E apanharam-me lá na casa de banho dos rapazes e encostaram-me à parede.
Eu lembro-me de chegar a casa e dizer ao meu irmão mais velho, só tinha um, mas mais velho três anos, dizer-lhe só... contar-lhe o episódio. E ele só me disse assim: Amanhã vais direito a esses rapazes e dizes assim: "O meu irmão disse que se me voltam a dirigir mal a palavra, eu apareço lá com o meu amigo também mais velho, era o Dinis. Eu apareço lá com o Dinis, e vamos aquecer esse rapaz."
E eu senti... a verdade é que eu nunca pedia ajuda, achava que resolvia os meus assuntos, nunca fui esse tipo de criança. Mas senti as costas quentes, aquele calorzinho que é: "OK, eu amanhã vou aparecer lá com mais de 10 cm porque vou avisar que eu não estou sozinho."
Tu sentiste perante terceiros essa necessidade de "o Rafael não está sozinho, tenham cuidado"?
Mariana: Deixa-me pensar.
Rui: Saltares em sua defesa, ao fim e ao cabo é isso.
Mariana: Eu acho que fiz isso muitas vezes, mas normalmente, curiosamente, o que eu me estou a lembrar especificamente, era mais perante familiares. Desde bastante nova e assim, algum comentário ou alguma coisa que eu não gostasse, eu eu tentava corrigir logo na hora. O que me lembro mais é esse tipo de episódios.
Rui: Porque as pessoas têm preconceitos, não é? Às vezes não é por mal, mas têm preconceito.
Mariana: O que o que eu chocava sempre mais era o que eu achava que eram expectativas demasiado baixas. Não era assim tipo algum comentário tipo parvo ou algum nome incorreto. Seria do género eu perceber que achavam que ele que não ia ser capaz de nada ou assim. Isso é o que eu normalmente gostava menos e e reagia mais.
Rui: Ou seja, dizias assim: "Não, deixem que ele faz".
Mariana: Exato.
Rui: Sério?
Mariana: Sim. Era mais nessa essa ótica que eu chocava mais.
Separação de identidades
Rui: Que giro. Porque vocês chegaram a andar na mesma escola?
Mariana: Sim. Nós andamos na mesma escola sempre. Nós andávamos no mesmo ano, só que depois os meus pais pediram mesmo que que o Rafael repetisse o primeiro ano. Para começar para que para ele poder ter mais tempo para assentar aquelas bases de saber ler, escrever, contar, isso tudo e depois também de propósito para nos poderem separar finalmente porque acharam que andávamos já um bocadinho colados demais, digamos assim.
Rui: Ou seja, um bocadinho em teu socorro.
Mariana: Exato. E quiseram criar essa separação de identidades.
Rui: Mas sabes que isso existe com os gémeos? As escolas, com uns colegas da minha mais nova, também no primeiro... Eu acho que eles andar foram da mesma turma no primeiro ciclo até ao quarto ano e depois no quinto e sexto a escola decidiu separá-los. Falaram com os pais e os pais acharam muito bem até.
Senão, parece que perdemos um bocadinho a a nossa identidade, porque olham para nós, somos os gémeos. Não, eu sou o Pedro e aquele é o Paulo, por exemplo. E apesar de ser uma relação muito forte, estamos sempre a fazer tudo ligados 24 horas no mesmo sítio. Ninguém se quer confundir uns com os outros, não é? Todos queremos ser únicos e somos mesmo.
Olha, e a que determinada altura tu precisaste mesmo, mas já sentido por ti, que precisavas seguir o teu caminho?
Mariana: Essa é uma pergunta curiosa, porque porque eu sinto que de forma ainda não consciente já estava lá. Ou seja, assim que eles criaram essa separação e ele continuou no primeiro ano e eu passei para o segundo ano, começou-se a criar essa essa expectativa.
E então eu acho que comecei a sentir essa expectativa e de que essa era a ideia suposta bastante cedo, mas ainda não sabia muito bem como dar voz nem palavras a isso. E, portanto, lembro-me de achar isso um bocado estranho.
Mas sim, senti que de repente estávamos, ou seja, ao mesmo tempo eu estava a crescer de maneiras diferentes do Rafael e então de repente parecia que já estávamos a começar a ficar separados. Percebes o que eu quero dizer?
E depois havia também essa culpa do "Espera aí, mas nós estamos a ficar separados, estamos a ir cada um para o seu caminho. Será que isso é o correto?"
Rui: Tipo "estou a abandonar o meu irmão"?
Mariana: Sim, exacto. Foi essa sensaçãozinha de será que estou a abandonar o meu irmão? Acabou por lá estar mesmo bastantes anos.
Habituei-me a ter de desenrascar mais sozinha
Rui: Nós começamos por isso, que é ninguém nasce ensinado a ser um irmão, de alguém que tem trissomia 21, ou autismo. Tu tiveste ajuda, ou seja, ao longo do caminho do teu crescimento, tu depois tiveste algum tipo de ajuda ou tudo era muito direcionado para o Rafael?
Mariana: Ah, acho que era mais direcionado para o para o Rafael. Acho que me habituei a estar um bocado... a ter de desenrascar mais sozinha, diria eu.
Rui: Sim, porque eu acho que o mundo não está preparado. Mesmo o mundo da educação ainda não está preparado.
Por exemplo, uma das coisas que toda a gente fala sobre isso é, imagina, tens um casal e uma das pessoas do casal está a passar por um problema psicológico, e começa a ser seguido até na psiquiatria, na psicologia, com medicação. Três ajudas. Fala-se muito em psicologia clínica que tem que se ter muita atenção ao cônjuge. Porque o outro vai estar a fazer o trabalho dele e do outro, vai estar a a tentar segurar as pontas, vai estar a fazer-se de forte e o outro está acompanhado e medicado e está em rota de recuperação.
E o que mais acontece é que quando esta pessoa fica boa, vá grau zero, recupera aquilo que era antes de ficar doente, o outro cai a pique.
Mas aqui tem-se essa consciência. Na educação, quando há uma criança que tem uma deficiência cognitiva, de desenvolvimento, nunca se pensa, ou eu não ainda não li nada sobre isso, de haver mecanismos de apoio do outro irmão, porque o mundo realmente está a ser diferente. Até porque tu na escola vias colegas com irmãos, e tu vias que a tua realidade era um bocadinho diferente.
Mariana: Sim.
Rui: Mas estás, o que estás aqui a dizer é que, ao longo destes anos todos... Casaste com que idade?
Mariana: 27.
Rui: 27. Até aos 27 anos, até saíres de casa, nunca houve esse apoio das instituições, do que quer que seja?
Mariana: Sim, acho que é uma realidade que temos largamente que navegar por nós mesmos.
Rui: Mas é pesado...
Não havia muitos recursos para ele
Mariana: Mas é curioso que eu sentia que, imagina, até mesmo os recursos que existiam para o meu irmão, eu sentia que eram poucos recursos. Então era do género, se ele já tem poucos recursos, como é que eu vou querer tirar-lhe ainda mais recursos?
Rui: Isto faz sentido.
Mariana: Por exemplo, os meus pais tiveram uma dificuldade enorme, enorme mesmo, para que ele conseguisse continuar na escola na altura do quarto para o quinto ano. A diretora de escola na altura estava a querer insistir muito que ele fosse para uma instituição lá da zona e os meus pais não queriam, queriam que o meu irmão continuasse na escola.
Hoje em dia acho que isso já está melhor. Nesse aspecto, acho que o meu irmão e pessoas da idade dele ou vá, um bocadinho mais novas ou um bocadinho mais velhas, tiveram de serem um bocadinho pioneiros nalgumas coisas. Infelizmente.
Mas nós não sentíamos que houvesse muitos recursos para ele.
Rui: Que há de ser sempre recursos de ligação, de ponte, entre o mundo dele, porque ele tem um mundo próprio, e o nosso mundo, montado por esta gente que andamos sempre a correr, não é? É um bocadinho esta ligação é que às vezes se torna fraca porque fala-se muito de que somos todos normais. Temos aqui um olhar, temos aqui umas características diferenciadas, mas fala-se muito que, por exemplo, algumas deficiências vêm com uma sensibilidade exacerbada, por exemplo, e se fôssemos todos sensíveis como eles. Então, questiona-se aqui muito o que é que é normativo e o que é que não é normativo, não é?
Mariana: Sim, sim, sim, sim.
Rui: Porque e o Rafael dá uns abraços espetaculares, não é? E conheci os teus pais. Os teus pais são umas pessoas cheias de força.
Como mãe, não se se estaria mais preparada
Rui: E tu agora apontada para ser mãe, estas questões vêm à tua cabeça? Ou seja, a questão de estarei mais preparada? Porque essa é uma grande pergunta.
Ou seja, eu olho para ti, a conversar contigo, vejo-te muito mais preparada e para ter um filho com trissomia 21 ou autismo, do que eu que nunca tive sequer...quer dizer, eu sou padrinho de um pessoa com autismo.
Mariana: Por acaso é engraçado que eu estou a pensar ser mãe e eu, desde que comecei sequer a pensar nessa possibilidade, nunca me passou pela cabeça que houvesse, imagina a ausência de... ou seja, eu nunca posso ter essa certeza.
Rui: Ausência de probabilidade. Estou a perceber.
Mariana: Nunca posso ter essa certeza, mas a verdade é que não sei se estaria mais preparada ou menos preparada com os outros. Possivelmente estaria um pouco mais preparada, mas por outros não sei.
Rui: Mas não pensas nisso, não é? Ou pensas?
Mariana: Penso.
Rui: Pensas um bocadinho. Pensas um bocadinho mais.
Mariana: Penso um bocadinho mais. Eu tenho tendência para para querer pensar as coisas um bocadinho também mais à frente, em vez de ser só completamente no presente e nos cenários atuais. O que tem o seu lado bom e o seu lado mau, não é? Também temos que ter cuidado para que isso não entre num perfil já mais tipo ansioso e até porque não conseguimos controlar tudo. Nem prever tudo.
Ele tem uma atenção para com as pessoas
Rui: Se tu pudesses nomear um super poder do Rafael?
Mariana: Agora estou a pensar...
Rui: O que é que te vem ao coração? Olha, para mim é dar uns abraços muito queridos. Ele é muito de toque.
Mariana: Eu estava a tentar pensar numa expressão que englobasse o que eu estou a imaginar, mas vou tentar descrever em vez de nomear. Ele tem uma atenção para com as pessoas. Ele lembra-se de coisas que eu me esqueço. Tem uma memória fantástica para os nomes, por exemplo. Ele claramente depois de conhecer as pessoas, normalmente não se esquece delas e nem de onde as conheceu, nem como. As ideias, os factos que ele apanha, ele lembra-se e vê-se que ele desenvolve mesmo carinho pelos outros também. Nesse sentido, eu acho que ele é mesmo muito aberto às outras pessoas.
Rui: Ou seja, muito humano?
Mariana: Sim.
Rui: Quase o que nos define, não é? Esta humanidade que habita em nós. Ele tem isso. Sem filtros até, não é? Naïf. Puro. Já nem digo naïf.
Ele sente muito coisas más
Mariana: Acho que sim. No entanto, vou só dizer uma coisa. Às vezes há, imagina a tendência, mas isto com qualquer pessoa, tipo sobresimplificar. Eu acho que ele sente muitas coisas, o que significa que como sente muitas coisas boas, também acho que sente muitas coisas más.
Eu já vi muitas narrativas e muitas versões das pessoas com trissomia 21 que são muito felizes, que tudo muito bom, mas o estarmos abertos às emoções humanas significa que também estamos abertos a todo tipo de emoções, não é? Não podemos sobresimplificar e temos de saber que essas pessoas também podem sentir todo o tipo de emoções como nós. Podem sentir raiva, podem sentir zanga...
Rui: O espectro todo, não é? Às vezes não conseguem explicar, não é? Nós às vezes, por exemplo, sentimos uma emoção e vamos corrigi-la para aceitarmos, para não fazer tantos estragos cá dentro, não é? Mas vamos explicá-la, vamos sempre explicar porque é que estou a ressentir isto, porque é que aconteceu, porque é que aquela pessoa me fez isto. E ele se calhar não tem tanto essa capacidade.
Mariana: Curiosamente também tem alguma coisa, porque tem muitos diálogos consigo mesmo. Só para contextualizar, ele fala muito consigo próprio. E nós sabemos quando ele está a falar consigo próprio porque ele fala alto.
Rui: E não precisa de espelho. Eu preciso de espelho.
Mariana: Não. E para mim já é tipo só barulho ambiente. Eu nem faço caso, nem oiço o que ele diz. E apago completamente porque não gosto de andar a espreitar e à cusca. Quero dar-lhe a privacidade dele. Mas sei que ele tem diálogos internos, de cenários, de coisas que se deviam ter passado de maneira diferente ou coisas que ele acabou de viver ou coisas que ele gostava que acontecessem. Mas pronto, há maneira dele.
Durante muito tempo havia o sonho de ele conseguir trabalhar
Rui: Claro. E sabes qual é o seu maior sonho? Ele já to confessou ou apanhaste-te nesses diálogos?
Mariana: Boa questão. Sabes porquê? Porque durante muito tempo havia o sonho de que ele ia conseguir trabalhar.
Rui: Isso mas isso era o sonho dele, ou teu, ou da vossa família? Eu estou a falar de dele.
Mariana: É boa questão, não é? Eu acho que também era dele. Só que, entretanto, isso já foi atingido. Portanto, o que é que vem a seguir? E eu tenho muita curiosidade nesse sentido.
Por acaso tenho muita curiosidade porque, ok, ele já conseguiu entrar neste capítulo. E o a seguir como é que será? Que é que ele ainda gostaria de fazer mais?
Rui: Mas achas que o que para nós são pequenas vitórias, para ele são grandes vitórias e e ele depois passa para esse patamar e sente-se com a força de ir à procura de uma coisa ainda com mais desafio?
Mariana: Eu não me espanto, porque eu diria que a natureza humana é quando atingimos alguma coisa, depois começarmos a pensar na coisa seguinte.
Rui: E achas que ele também está sempre nesse caminho?
Mariana: Está. Acho que sim.
Rui: Mas lembras-te assim de um sonho...
Falta o local para ele conhecer a namorada
Mariana: Há um que ele já verbalizou e que ainda não aconteceu, que é que conseguiu ter algum tipo de namorada. Pronto. Esse aspecto da vida dele até agora ainda não se materializou. Infelizmente não é muito fácil. Não é muito fácil porque ele aí está em desvantagem num aspecto, é como ele não está institucionalizado e normalmente as pessoas com deficiência conhecem-se mais em nesse tipo de contextos. Não devia ser, claro que não devia ser...
Rui: Não sei porque eu conheci a minha mulher na faculdade. Eu sou da geração em que no primeiro lugar estava exatamente a faculdade como o lugar onde se encontram as pessoas que depois casam. Estamos a falar da maioria. Depois era o trabalho a seguir. Hoje as redes sociais estão aqui em cima, estão em primeiro lugar.
Por isso, quando tu dizes isso, tens toda a razão, porque é natural que uma escola, o espaço, não é, onde existem pessoas mais parecidas connosco, a olhar para os mesmos sítios, a ter os mesmos tipos de sonhos, é onde a afinidade até, não é, do coração depois se transforma em interesse e em amor, em futuro e por aí fora. Isso tens razão, não? É, então eu fui da geração da faculdade.
Não sei onde é que conheceste o teu marido.
Mariana: Foi no secundário.
Rui: Foi na escola. É muito na escola. Eu por acaso foi só faculdade, mas começa logo no secundário também com muita gente. Hoje estamos a ser ultrapassados pelas redes sociais porque, sei lá, promove-se o primeiro contacto. Quando eu digo isto, não é que as pessoas tiveram nas redes sociais meses a fio e depois decidem namorar. Não é bem assim. A estatística o que diz é que é aí que se conhecem. É através daí o primeiro impulso para se conhecerem e depois há um encontro físico e depois por aí fora e acontece que que se torne mais e que dê em casamento, em relação, e depois casamento ou juntarem-se, tanto faz.
Mas fomos ultrapassados: era a escola, trabalho, isso tudo foi ultrapassado. No trabalho agora temos o teletrabalho, está muita gente a passar pouco tempo no trabalho e as equipas até desencontrarem-se nos horários semanais, por isso isso ainda vai perder mais mais espaço.
Vamos dar o nosso melhor com aquilo que temos
Rui: Olhando para os teus pais e a forma como sempre vos educaram e em particular com o Rafael, o que é que tu sentes? O que é que tu sentes quando quando vistes os teus pais a fazer este caminho? Porque olha que não é fácil. Não é fácil.
Mariana: Uma mistura entre profunda admiração e ao mesmo tempo bastante ambiguidade. Eu sei que eles deram mesmo o melhor deles e que fizeram o melhor que sabiam, tentaram estar informados. Na altura deles havia menos coisas do que agora mesmo assim.
Fizeram tudo perfeito? Não, não fizeram tudo perfeito. Fizeram tudo mal? Não, também muito longe disso. Sei que estiveram muito longe disso. Deram, deram mesmo o seu melhor e gostam mesmo muito de nós.
Rui: Isso eu percebi. Aliás, uma das coisas que eu mais admirei nos teus pais — eu eu vou ser parvo de propósito — foi a leveza com que conseguiram ficar, depois de 30 anos, não é? De vos educarem quase 30 anos os dois. A leveza que ficou neles e conversar com eles é agradável, são bem dispostos.
Estávamos a falar aqui antes de de iniciarmos aqui o nosso episódio, estávamos a falar um bocadinho disso, que a questão não é o que te acontece, mas sim a tua reação ao que te acontece. E é aí que depois a leveza pode ganhar espaço, pode ficar.
E eu adoro os teus pais por causa disso, porque muitas das vezes encontramos pessoas que estão com amargura, que estão mais amargas em relação à vida e mesmo sem sabermos a história deles, ficamos a desconfiar. A vida não deve ter sido, deve ter sido um bocadinho madrasta. Aconteceu ali várias coisas, aquilo foi difícil e e agora a vida quase que criou estas duas personagens que lá atrás não eram nada assim e agora ficaram assim. Eu já já convivi com muita gente assim e os teus pais não. Gostei muito.
Mariana: Não. Não são, não. Eles souberam mesmo ter uma atitude de vamos dar o nosso melhor com aquilo que temos. Também tentaram ter uma atitude de grande humildade e de procurar ir buscar ajuda e recursos a várias pessoas e vários contextos e não quiseram ficar parados, nem ficar resignados. Acho que isso é maior a maior força deles. Nesse aspecto eles são uma inspiração.
Passeámos muito
Rui: E vocês passearam muito, não foi? Sei que andavam sempre no laréu.
Mariana: Passeámos. Isso era mesmo uma coisa que eles queriam fazer connosco.
Rui: Porque às vezes a opção é isolar, não é?
Mariana: Eles eles quiseram que fosse o oposto. Nós tínhamos de ir a todo o lado, ir a muitos sítios.
Pronto, por causa do Rafael, mas nisso eu também fui beneficiada para nos pôr em todo o tipo de contexto, de lugares, de pessoas.
Cada um no seu espaço
Rui: E já aconteceu o contrário, que é o Rafael, tu estás assim mais tristonha e o Rafael vir e dar tentar dar-te força, choques de força e ânimo? Ou seja, ele ter essa perceção, percebes?
Mariana: Ah, talvez agora não. Durante um bom número de anos ficamos do género "Eu quero cada um no seu espaço".
Rui: Exato. Já chega. Tipo, vai à tua vida.
Mariana: Exatamente. Era mesmo isso. Tipo, não me chateies e eu não te quero chatear. Tu não queres chatear-me e tá cada um no seu canto. Pronto. Durante alguns anos foi assim.
Rui:: Mas há algum episódio em que tu, ou triste, ou imagina aleijaste-te ou partiste um braço, ou partiste uma perna, ou sei lá, ou ficaste mesmo engripada, ficaste mesmo em baixo e não sei quê e ele ficar ele fica aflito ou passa-lhe um bocadinho ao lado.
Mariana: Não lhe passava ao lado, mas é engraçado que não me lembro de nada assim especial. Sabes porquê? Porque eu acho que provavelmente também dava isso como garantido.
Rui: Mas tu adoeceste, ou não? Nunca adoeceste?
Mariana: Normalmente eu não ficava doente.
Rui: Eh lá! Temos mulher!
Mariana: Não, eu normalmente não ficava doente. Ele é que tinha tudo. Eu não tinha nada. Normalmente eu não tinha assim nada de especial, portanto também não havia grandes oportunidades para isso, em abono dele.
Já gosto da família que temos
Rui: E como futura mãe: um filho, dois filhos, três filhos? Como é que é o teu apetito? É uma família grande que vem aí? Nós aqui falamos de lar e queremos inspirar as pessoas a ter muitos filhos...
Mariana: Eu gostava de ter três pelo menos, mas logo se vê.
Rui: Eu tenho três e também demorei. As minhas filhas têm uma diferença muito grande e foi o que a biologia também permitiu. Mas mas às vezes o que interessa é desejar. É desejar com toda a força. Ou seja, a partir de três está bom.
Mariana: É, mas independente disso, eu já digo ao meu marido que já gosto da família que temos. Independentemente do que venha a seguir, do que aconteça a seguir, já estou bem com ele e com aquilo que nós já temos.
Acho que também é importante estarmos abertos a todo tipo de cenários e possibilidades, inclusive o estarmos confortáveis já connosco mesmos e com a pessoa com quem estamos. Ou seja, no sentido de não estarmos a precisar de sentir-nos completos por outros seres extra. Eu já estou completa comigo mesma e com a pessoa com quem eu estou.
Rui: Ou seja, estás a viver a tua vida na sua melhor versão.
Mariana: É isso que eu quero. E imagina, independentemente de virem filhos a seguir.
Rui: Não te falta nada. Se vier é espetacular.
Mariana: É isso que eu estou a tentar cultivar e que eu quero continuar a cultivar porque nós nunca nunca sabemos o que é que pode vir no futuro ou não. O mais importante é já estarmos confortáveis com aquilo que já temos.
Rui: Mas o teu marido também quer, não é? Três quer.
Mariana: Quer.
Rui: Às vezes assim nem pensar. Olha que ele vai ver isto.
Mariana: Não, ele diz "depois logo se vê".
Rui: Já percebi. Ele diz logo se vê. Mariana mandona...
Mariana: Não. E nós já temos muitas princesas lá em casa, verdade seja dita. Nós já temos muito amor lá em casa. Já temos muito reboliço lá em casa com os nossos animais. Portanto, já há uma grande família ali, mas sim, gostava que houvesse mais.
Rui: Ainda bem, ainda bem.
Que ele se sinta sempre num porto seguro
Rui: Olha, estamos a chegar ao fim do nosso episódio. Gostei muito de estar aqui contigo neste bocadinho. Falámos do sonho do Rafael e eu agora vou perguntar-te: qual é o teu sonho para o Rafael? Desse amor todo, que desejas para o Rafael?
Mariana: Qual é o meu sonho para o Rafael? Que ele se sinta sempre num porto seguro, ou seja, que ele esteja sempre com pessoas que gostam dele e que ele sinta essa essa segurança, e esse amor, e esse respeito, e esse carinho, e essa fé nele e na pessoa que ele é e esse gosto em estar com ele tal e qual como ele é, sem haver expectativas de algo diferente. Não, simplesmente tal e qual como ele é. Eu acho que isso é o mais importante.
Eu não quero que ele sinta que nós gostávamos que ele fosse alguém diferente. Quero que ele saiba que a gente gosta dele tal e qual como ele é e existe neste momento. Eu consegui cultivar isso com ele e que ele daqui para sempre.
Rui: E que ele considere isso um direito.
Mariana: Sim. Um direito e um dado adquirido e que não tenha sequer dúvidas sobre isso. Que isso seja adquirido.
Rui: Muito bem. Grande mensagem do coração.
E ficamos por aqui. Obrigado, Mariana, por tudo, por teres vindo.
Mariana: Obrigada eu.
Rui: E quanto a nós, até ao próximo episódio. Sejam felizes.